Estamos a Caminho de Guerra Civil? | Discurso proferido na X Cerimónia de Graduação da UTM

Quando olho para a nossa história, da escravatura, ao colonialismo, à guerra de 16 anos, até às manifestações pós-eleitorais de 2024, vejo uma linha dolorosa, mas também vejo um perigo: o de transformarmos toda esta dor em ódio permanente.

Neste discurso, que fiz na X graduação da UDM, em dezembro, no Joaquim Chissano, tento responder a uma pergunta simples e brutal:

Estamos a construir um futuro ou apenas a multiplicar mártires e vinganças?

Lembro que fomos derrotados em conjunto: nem Frelimo ganhou a guerra, nem Renamo ganhou a guerra, nem Moçambique ganhou. E agora corremos o risco de entrar numa guerra civil entre nós, enquanto o gás continua a sair de Cabo Delgado, o grafite continua a sair de Balama, e as nossas crianças continuam sem escola digna e sem hospital à altura das suas necessidades.

Por isso proponho três ideias centrais:
1. Moçambique acima das partes.
Antes de sermos “pró” isto ou “contra” aquilo, somos moçambicanos. País, primeiro; partidos, depois.
2. Justiça não é vingança.
Em vez de “fazer pagar”, imagino a justiça como uma costureira que usa fios diferentes para fazer uma camisola que aquece a todos. Costurar Moçambique é isso: cozer diferenças em vez de rasgar ainda mais o tecido social.
3. Os diplomados e as elites têm uma missão.
O diploma não é decoração. É uma carta de condução: para conduzir o país com ética, responsabilidade e coragem; para reconciliar bairros, províncias, memórias e dores.

Não se trata de negar erros, crimes, abusos ou desigualdades. Trata-se de saber se queremos ficar eternamente presos ao passado – ou se somos capazes de, no altar do futuro, sacrificar até uma parte da nossa dor, em nome das crianças que ainda nem nasceram.

Website: https://www.severinongoenha.com/

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